


O GLOBO – 30-12-74
A educação pré-escolar é hoje na Guanabara tão diversificada que um pai pode escolher entre colocar seu filho numa escola que segue orientação de Jean Piaget, Maria Montessori, Claparède, John Dewey ou Carl Rogers, só para citar os mais cotados.
Piaget, Montessori, Claparèd, Dewey ou Rogers: cinco escolas, um objetivo – a educação da criança.
AS EXPERIÊNCIAS filiadas à Montessori são, na Guanabara, mais numerosas, mas a maioria delas não seria considerada como tal por qualquer especialista europeu que, como bom montessoriano, não aceita adaptações do sistema criado pela médica e educadora italiana, no século XIX. O suíço Jean Piaget só autorizou até agora um centro na América Latina a funcionar sob seu método: a escolinha “A Chave do Tamanho”, dirigida pelo professor Lauro de Oliveira Lima, também um especialista em Educação.
Importa saber o que dizem essas duas principais correntes, enquanto formulações teóricas, e até que ponto estão atingindo seus objetivos. Há ainda necessidade de saber como estão lidando com toda essa metodologia colégios que realizam experiências inovadoras, mas independentes de qualquer orientação exclusivista.
Montessori
Até Jean Jacques Rousseau (“Etnilio”), a criança era considerada um homúnculo e, como tal, era vestido e tratado como um adulto. Depois do pensador francês, o mundo acordou para a criança enquanto um ser especial e os educadores de todos os países começaram a “inventar” métodos na tentativa empírica de respeitar a personalidade infantil, ainda que faltassem bases científicas e pesquisas de campo que fundamentassem esta procura.
Ainda no século XIX, Maria Montessori, que foi a primeira mulher a cursar a Faculdade de Medicina da Universidade de Roma, encarregou-se de um grupo de meninos e meninas débeis mentais e conseguiu fazer, em pouco tempo, com que eles fossem aprovados em exames de ingresso às escolas públicas. O seu trabalho com deficientes mentais a fez concluir que a educação poderia conseguir resultados extraordinários nas crianças normais, desde que seu método, que tem como visão básica uma liberdade responsável, com limites e controle, consciente e preparada pelo ambiente adequado, fosse corretamente aplicado.
Segundo os especialistas, a utilização do método deve ser rigorosa e as adaptações não são admitidas, o que deixa alguns desconfiados, com a maioria das tentativas cariocas que se rotulam montessorianas.
Trabalho
Diz Montessori (“Pedagogia Científica” e “La Mente Del Bambino”) que a criança deve ser convidada a trabalhar nunca obrigada ou coagida, num ambiente preparado, onde tudo será oferecido e posto à disposição para que ela livremente escolha. É importante, segundo Maria Montessori, não punir ou premiar, pois a repressão tolhe a criatividade e conduz a traumas indesejáveis.
A professora montessoriana não ensina; ela faz as “apresentações”, respeitando o ritmo próprio de cada criança. Cabe à professora zelar para que o “ambiente preparado” esteja organizado para não enfatizar a aprendizagem do falar, e do ouvir, mas a aprendizagem através do fazer e manipular sem interrupção. A mestra é a mediadora entre o “ambiente preparado” e o aluno.
Piaget
Em um artigo publicado há algum tempo, o professor Lauro de Oliveira Lima ( “A Escola Secundária Moderna”) dizia que os estudos de Jean Piaget sobre a inteligência da criança desafiaram tanto behavioristas (norte-americanos) quanto reflexologistas (russos) que, “por preconceito e método, para não parecerem metafísicos, proibiram-se de examinar o problema da inteligência”.
Os Estados Unidos descobriram Piaget, na década de 60, quando ele enviou sua principal colaboradora, Barbel Inhelder, para reformular a educação programada nos EUA até aquela época substituindo-a pela educação da inteligência, da criatividade e do pensamento hipotético-dedutivo (matemático). Com isso, a obra do Piaget correu o mundo, chegando até o Brasil (“O Raciocínio da Criança”, editado pela Recorde e uma coleção lançada pela Zahar).
Inteligência
Basicamente, Jean Piaget mostra a necessidade do aproveitamento máximo do potencial da inteligência infantil em cada uma de suas fases: motora (até dois anos), simbólica (de dois aos quatro anos) – época da fabulação, intuitiva ( de três aos seis anos – época das frases verdadeiras mas sem lógica) e operativa-concreta (dos seis aos nove anos).
Segundo os especialistas, é mais apropriado chamar de método psicogenético, as adaptações feitas à Educação, por professores, das teorias formuladas por Piaget sobre o desenvolvimento da inteligência da criança.
No método psicogenético, cada estágio é bem desenvolvido, ampliado, motivando a criança e fazendo com que ela tenha uma ótima base motora para chegar à etapa simbólica e assim por diante.
Na aplicação da filosofia piagetiana não existe a distribuição por classes, mas assim em “recantos” que tem, em à “chave do tamanho”, nomes dos personagens de Monteiro Lobato: Rabicó, Quindim, Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde, em ordem crescente.
Lá, cada sala de aula tem um espelho, onde os alunos aprendem a identificar o seu “eu” e “os outros”. Entre as peças do material didático, de um modo geral comum a todas as escolas, há um equipamento de operações concretas, brinquedo norte-americano construído segundo o pensamento piagetiano, para o aprendizado de relações, números e medidas. As crianças são dispostas em grupos, numa didática experimental, regida sob a dinâmica de grupo.
Uma outra característica do método psicogenético é submeter o aluno progressivamente a novas atividades, sendo que em cada atividade a criança passa pelas seguintes fases: situação-problema (quando o aluno vai ser liberado de problemas motores, simbólicos e de operação para aprender a atividade de maneira adequada); pesquisa-criativa (a busca do conhecimento para manipular a atividade); síntese (a criança adquire noção da atividade que está praticando, já é capaz de teorizá-la); generalização e transferência para novas situações (uma vez adquirida a capacidade de sintetizar, a criança ganha autonomia suficiente para selecionar seus próprios meios de ação numa nova situação).
A longo prazo, o método psicogenético faz com que a criança evolua em três estágios: anomia (ausência total de regras); heteronomia (o professor transmite regras impostas à criança) e autonomia ( o adolescente tem liberdade de escolher os meios de agir).
Prática
Isabel Maria Filgueiras está agora com seis anos e vai cursar o Complemento de Alfabetização num colégio grande, que não segue orientação exclusiva, mas é organizado, e ela está muito integrada e com um aproveitamento escolar muito bom, segundo sua mãe, Maria do Carmo Filgueiras.
Maria do Carmo, conta que Isabel começou a sua vida escolar, muito cedo, com dois anos incompletos, na escola Pueri Domus, montessoriana. Como a Constructos Sul.
- Aí, ela aprendeu a sentar como um iogue, a brincar com o material didático, a falar baixo e a respeitar a linha. Nessa fase, Isabel gostou muito da escola e as professoras me pareceram ter, antes de qualquer conhecimento teórico, bom senso. Aliás, à exceção dos diretores, o corpo docente parecia pouco familiarizado com os princípios de Maria Montessori. Penso que a maioria dos pais também não possuía conhecimento do assunto e não me lembro de qualquer seminário esclarecedor nesse sentido, por parte da escola. A minha escolha recaiu mais por modismo que por qualquer outro motivo. Meu marido achou que o Pueri Domus dava pouca ênfase à criatividade e que o princípio da autodisciplina corria o perigo de tolher Isabel que pendia para a introversão. Resolvemos, então, tirá-la do colégio.
Maria do Carmo diz que por admirar o professor Lauro de Oliveira Lima e ter tido alguns dos seus livros, resolveu colocar Isabel na escolinha “ A Chave do Tamanho”, onde ela entrou para o recanto “ Visconde”.
- Houve, desde o início, problemas com a professora, uma pessoa extremamente inteligente mas muito preocupada em levar Piaget à prática, o que a impedia de ser espontânea. Penso que por inexperiência da maioria do corpo docente (só Lauro está realmente familiarizado com as ideias de Piaget) esse comportamento era muito comum. Senti uma defasagem entre a proposta do professor Lauro, que é muito séria, e o grupo de professores que ainda parece muito imaturo e a leva à prática.
Maria do Carmo conta ainda que sentiu na “ A Chave do Tamanho” uma subestimação do aspecto afetivo-emocional:
- A escola dá muita ênfase à inteligência mas não dispõe de um só psicólogo, nem mesmo como assessor.
E ela diz que a parte da criatividade artística é também subestimada, “tudo se passa como se a criança só tivesse à inteligência”.
A Escola Parque se orgulha de ser uma escola cujo método é não ter método. Tanto Rita Coutinho Pinheiro quanto Ana Lúcia Richard acham que a adoção de um só método pode acarretar os erros e os acertos contidos em qualquer orientação rígida. E o fato de que os pensadores responsáveis pelas orientações mais conhecidas – Montessori e Piaget – viveram em épocas diferentes daquela em que a criança com quem lidam vivem em países e culturas distintas, tornam muitos de seus princípios distantes e pouco reais.
- Lemos de tudo em matéria de Educação – explica Ana Lúcia Richard – e aproveitamos conceitos ou orientações mais expressivas para a criança de cada um dos teóricos. Na formulação da Filosofia e Princípios Pedagógicos do Jardim Escola Parque, empregamos as ideias de Lauro de Oliveira Lima, Carl Rogers, Jean Piaget, Esteves Oyaror e Therezinha Ebeli. Mas antes do método vem a criança, o que ela é, a realidade que ela vive. O fato de não termos uma só orientação dá muito trabalho pois é preciso viver muito atento, fazer muitas reciclagens, avaliar constantemente e refazer sempre em cima do que foi avaliado.
Aquisição
Rita Coutinho Pinheiro, afirma que muitos pais chegam até a Escola Parque ansiosos por saber qual o método empregado, porque ouviram falar que “Piaget está mais na moda”. Segundo ela, a educação é um processo: o de aquisição e conhecimento dos valores universais do homem e da humanidade com uma preparação com o permanente, ao mesmo tempo que a concebe como uma formação para a mudança.
- Não se pode prender a esquemas aquele que vai ser o homem do ano 2000; estaríamos formando pessoas despreparadas para as profundas mudanças que a ciência e a tecnologia operam em ritmo vertiginoso.
Rita e Ana Lúcia, enumeram os princípios pedagógicos da sua escola:
- Ensino criativo (o professor ensina a aprender), entender a curiosidade infantil como causa primeira do processo de aprendizagem, dar condições à criança para se conduzir perante situações de mudança, ter por centro a criança (aprender do aluno e não em termos alheios a sua experiência infantil), ter um currículo constituído por atividades e termos não por matérias de ensino, estar integrada na vida real ( relacionando suas experiências às experiências do lar e do meio social ), ação inteligente, continuidade de propósitos, noção das capacidades e deficiências próprias e alheias, solidariedade, objetividade, autonomia de aprendizagem, liderança e autocontrole, desenvolver a percepção de relações, a formação de conceitos, o pensamento lógico e o raciocínio.